Espera na fila do supermercado com as compras na mão. Muda o cansaço de perna e olha mais uma vez a tela do celular. Fim de tarde. Fim do expediente. Queria que fosse o fim. Sente a exaustão, resolve desamarrar os cabelos do coque. Arrancar os sapatos, jogar longe. Libertar -se do uniforme e da canga social. Acorda cedo, faz café, toma as pressas e corre pro ponto. Ônibus lotado, trânsito parado, metrô lotado, vida cheia, saco cheio mas há a vida a se ganhar. Cotidiano.
Espera que o dia logo acabe, que levante logo daquela cadeira. Chega de ouvir aquele barulhinho infernal, quer sair daquele mercado, o cheiro já lhe aterroriza a mente. Está muito cansada, mas ainda tem que correr pro ponto de ônibus junto com as colegas. Perigoso sair aquela hora da noite sozinha. Quando chega no bairro então é mais uma corrida, segurando a bolsa e rezando a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Coracao na mão. Medo. Em casa, os filhos já dormem.
Olha mais uma vez a tela do celular, de pé no ônibus lotado, dá sinal pra descer no próximo ponto. Cansada, ela não tem nem coragem de correr, limpou dois andares inteiros do prédio comercial em que trabalha. E teve ainda que aguentar o papo mole do chefe e a reclamação. Serviço bem feito, reparo em dobro. Ele não cansa das piadinhas, mas ela já cansou há muito tempo do assédio. Volta pra casa, esperando mensagem do noivo. Esperando uma outra vida que não aquela. Tão cansada. Os pés doem. Ela não corre mais.
Ela desce, elas sobem. As três marias encontram-se na constelação cinza dá metrópole.
sábado, 11 de março de 2017
Ponto de ônibus
sexta-feira, 10 de março de 2017
[A posse em três atos ou as contas do terço]
Mariinha cozinha, lava e deixa alvo o algodão dos lençois. Faz bolo de puba, costura, cuida da casa e do terceiro filho. É devota do Sagrado Coração de Jesus, como sua mãe. Que saudade de mainha, morreu no parto do seu último irmão, que pela bondade de seu Antóim ela criava.
Mariinha ainda hoje escondido brinca com as bonecas de trapo e sabugo que ela faz sumir no meio do borralho. Quando seu Antóim chega da lida do roçado, esbravejando por comidas e haveres, aquele homem grande, mãos grandes, sem tamanho e ela tão pequena, ela começa a tremedeira, treme inteira, calada a coitada. Treme, enxuga escondida na ponta do avental as lágrimas que lhe aparecem nos olhos. Serve a comida. E a cama. Ela serve. Pra isso que mulher foi feita, pra servir. Foi prometida em casamento pra Antoin antes mesmo de sair do ventre de sua mãe. Se fez mocinha aos 9 anos de idade e aos onze já estava casada. Nunca pegou em um lápis e papel. Instrução vira a cabeça de mulher, não é bom saber leitura, ouvia dizer seu pai e o padre aquiescia.
Não gosta daquela vida que lhe foi dada, mas se conforma. Nunca soube de mulher que tivesse outra. A não ser as da vida. Mas essas penam na mão dos homens tanto como qualquer.Todas no final, vivem, todas estão na vida de algum jeito, pensava. Mas não tinha coragem de dizer aquelas coisas tortas que apareciam em sua cabeça. Mariinha pensa muito no seu canto, sobre as coisas. E cisma que um dia, tudo ainda há de mudar.
Mariinha é mulher sem luxo. Nada pede. Tudo acata. Tudo cala. Guarda pra si tanta coisa. A dor toda sem soluço e sem abraço que foi da perda do primeiro filho. O medo que sentiu ao sofrer as dores do parto. O pavor que quase lhe escapa dos olhos quando seu Antóim chega bêbado em casa, falando alto e exigindo o corpo tão delicado dela. Mariinha é toda um alfenim, um doce suave de cana. Ainda mesmo depois de tanta dor, consegue sorrir pros filhos, suas crias que ela ama tanto; se avecha, quer os filhos estudados, longe da ignorância. Cuida, ama, acaricia a cabecinha de seus rebentos a mais não poder. Quer pros filhos e pra filha que ainda vai vir um dia, uma vida toda outra que não se assemelhe a dela.
Mariinha sente muita saudade, ainda sonha. Sonha que ainda é menininha nova e está com a mãe, deitada em seu regaço, ouvindo ela cantar as vozes do sertão.
sábado, 4 de março de 2017
Se eu pudesse esquecer
Se eu pudesse dizer uma vez mais o quanto eu te amo, talvez você não quisesse ouvir...Mas eu diria ainda assim, mesmo que apenas o vento escutasse e levasse pra longe. Eu poderia cantar o que nós fomos, mas pularia a estrofe do que nos tornamos.
Se eu pudesse esquecer, eu esqueceria tudo, os beijos, os abraços, a sua voz. Mas eu não quero, eu tento e as memórias até perderam um pouco do brilho, mas todo dia, há uma que volta como um lampejo no escuro, pra me lembrar. Não quero apagar as memórias, eu só quero saber como faço pra deixar o meu coração em uma esquina e fugir.
Se eu pudesse voltar, mas eu não posso, mais por um tolo desejo, eu não teria gritado, eu não teria me tornado esse monstro de coração torto que eu me tornei. Eu teria cumprido a promessa do pra sempre. Me perdoa por não ter cumprido, as feridas cicatrizam até, mas a marca sempre vai estar aí. Então, me perdoa pelos mil espinhos. Se você conseguir.
Se eu pudesse eu teria me tornado um paraíso, um remanso, um momento de leveza, mas eu não pude.
Eu poderia, mas agora não posso mais. Eu queria, mas agora não sou mais.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017
Nós dois
Nós dois, sentados no café olhando pro chão, as árvores, os passantes.
Nós dois, que já não conversamos, já não nos beijamos mais.
Nós dois.
Juntos.
Sozinhos.
Você aperta a minha mão e ri de uma forma tão linda, que eu abro um sorriso que iluminaria o mundo por um segundo. Você me puxa pela milésima vez e me beija e diz que me ama.
Você esconde as mãos no bolso, usa um tom de voz educado e fala que precisamos conversar e deixar tudo acertado.
Você esconde as mãos e os olhos no café, e eu fico sem palavras.
Você me abraça durante o medo, não solta a minha mão no escuro, enxuga as minhas lágrimas e repete que sempre vai estar ali, pra mim e por mim.
Você se torna não só o amante, mas o amigo.
O tom que usamos é formal, inflexível, destoante das conversas animadas e das risadas e felicidade ao redor. É um dia de Sol, é verão. Faz calor, mas ambos trememos. Tudo que a gente quer é ir embora dali, abandonarmo-nos uma vez mais.
A chuva e o frio impedem as pessoas de sorrir. Elas passam apressadas por nós, mas será que elas não vêem o enorme, a brilhante luz que toma tudo reavivando o cinza? Quem são aquelas pessoas tristes? Por que elas são assim?
O nosso futuro e o nosso passado, um dia, se encontraram na esquina.
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017
[Titulo breve para a caça]
quinta-feira, 19 de janeiro de 2017
Texto entre chaves
[Texto entre chaves]
Apesar dos pesares. Depois das marés e tempestades. O barco volta ao mar.
Um corpo que eu nem sabia mais pertencer. Meus pés eram teus, meus braços, mãos, olhos e coração, pareciam não ser mais minhas posses. A entrega não mediu esforços. A perda também não. Me arrancou cada membro e cada sentido. Me fez cega. Me fez louca. Me fez paralítica em meus sentimentos.
E tudo aquilo que eu acreditava perdido, por um milagre, eu recuperei. Olho para meus pés. Aqui estão. Olho minhas mãos. Tão belas. Tão minhas. Meu coração. Não está morto. Não está destroçado. Assim eu o imaginava. Aqui estou. Eu sobrevivi. Aqui estou e ao meu lado, vou continuar. Eu me pertenço e agora me vejo sumo doce em meus próprios e novos lábios.
Saibam: eu me amo.
Pra caramba.