Espera na fila do supermercado com as compras na mão. Muda o cansaço de perna e olha mais uma vez a tela do celular. Fim de tarde. Fim do expediente. Queria que fosse o fim. Sente a exaustão, resolve desamarrar os cabelos do coque. Arrancar os sapatos, jogar longe. Libertar -se do uniforme e da canga social. Acorda cedo, faz café, toma as pressas e corre pro ponto. Ônibus lotado, trânsito parado, metrô lotado, vida cheia, saco cheio mas há a vida a se ganhar. Cotidiano.
Espera que o dia logo acabe, que levante logo daquela cadeira. Chega de ouvir aquele barulhinho infernal, quer sair daquele mercado, o cheiro já lhe aterroriza a mente. Está muito cansada, mas ainda tem que correr pro ponto de ônibus junto com as colegas. Perigoso sair aquela hora da noite sozinha. Quando chega no bairro então é mais uma corrida, segurando a bolsa e rezando a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Coracao na mão. Medo. Em casa, os filhos já dormem.
Olha mais uma vez a tela do celular, de pé no ônibus lotado, dá sinal pra descer no próximo ponto. Cansada, ela não tem nem coragem de correr, limpou dois andares inteiros do prédio comercial em que trabalha. E teve ainda que aguentar o papo mole do chefe e a reclamação. Serviço bem feito, reparo em dobro. Ele não cansa das piadinhas, mas ela já cansou há muito tempo do assédio. Volta pra casa, esperando mensagem do noivo. Esperando uma outra vida que não aquela. Tão cansada. Os pés doem. Ela não corre mais.
Ela desce, elas sobem. As três marias encontram-se na constelação cinza dá metrópole.
sábado, 11 de março de 2017
Ponto de ônibus
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