Tinha muito tempo. Calma.Tudo ao seu tempo. O tempo não pára, toca no rádio. Temos todo o tempo do mundo, e ele escorre entre os dedos. Mais um cigarro, queimando lentamente, pra passar o tempo. O som do tempo lá fora, com os carros passando, as crianças na rua e o vento forçando a janela, querendo trazer o tempo, para dentro daquele quarto. Mais ali o tempo deixou de existir de algum forma, ou se existe, se arrasta. Olha para tudo, rememora o que deve fazer, mas não faz. Adia, procrastina, desleixa o trabalho. Se culpa por isso. Uma coisa aprendera tempos atrás, com muito custo: com o tempo não se brinca. Precisa de um novo tempo. Precisa na verdade, de si, há uma semana atrás. Não consegue voltar à normalidade, à seu tempo. Prende-se a uma memória viciante, um som repetitivo em sua cabeça. É uma agonia e um prazer ao mesmo tempo, e tem medo de enlouquecer, por medo, não se permite. Não agora. Precisa organizar-se.
O tempo lá fora, é diferente do tempo aqui dentro, pensou. Eram uma coisa só o tempo lá fora e aquele corpo, há uma semana atrás; caminhavam no mesmo passo tranquilo, dentro da norma, da regra. Mas isso mudara. A chegada dele, transformara tudo. A volta, na verdade. Teria se curado completamente, se ele não tivesse voltado. Por que voltar? Pra quê? Entrou com tanto escarcéu, uma verdadeira hecatombe, pegando logo um cigarro dos seus e acendendo, com o mesmo sorriso torto no rosto. Aquilo lhe deu um ódio tamanho. Ao mesmo tempo, odiava, mas não reagia; por perplexidade, deixou ficar.
Olhou o relógio e viu que ele daqui há pouco tempo, retornaria. Em um segundo de desespero, levantou, colocou coisas em uma mala, pegou a carteira e as chaves e saiu. Trancou a porta do quarto, mas sabia ser inútil, ele daria um jeito de entrar sempre.
Saiu, suspirou e voltou a sentir liberdade.
Um mês depois ao retornar para a casa que abrigava agora sua nova rotina, de uma cama eternamente desfeita, uma geladeira com restos de comida e um cinzeiro cheio, encontrou um bilhete embaixo da porta:
"Se não me queria, não precisava abandonar seu lugar, me pedisse que eu ia embora, novamente, como fiz das outras vezes; volto, por que você sempre me chama.
Seu,
Tempo".
quarta-feira, 19 de março de 2014
terça-feira, 18 de março de 2014
Odisseia
Saiu da casa que morou por 7 anos, as sete em ponto. Chuva fininha e gelada. Ele que havia nascido em um dia sete, se sentiu um tanto perseguido por uma numerologia absurda, repleta de fracasso. O sapato apertado, apesar de velho, o terno amarrotado e a falta de um isqueiro completavam o quadro. Um quadrado, um caixote, ele nem mais se imaginava,não sentia. Não se colocava como uma vítima; colhera o que plantara, ou quase isso. Na verdade nunca houvera batalha a ser vencida. A mulher que deixara na casa, ainda o amava; ela mesma o dissera, mas não suportava mais. O que? O que havia de tão insuportável nele? Ele até imaginava qual poderia ser o motivo, mas considerava um motivo muito banal para se deixar alguém. Porém, são as banalidades que sempre destruíram tudo o que ele havia tentado manter em sua vida. Sempre foi assim.
Contou. Sete fracassos. Se bem que não amava aquela mulher, e tudo no que havia fracassado na verdade, havia sido dessa forma; nem se dera ao trabalho de lutar, ou conquistar. Simplesmente aceitava. Entrou em casa e encontrou as malas arrumadas. Olhou para tudo aquilo e os olhos vermelhos de Regina e entendeu no exato instante, tudo. Calado, pegou suas coisas e saiu; ela o prendeu com as palavras; uma verdadeira torrente, um rio, engasgado na garganta daquela mulher, que mais lágrimas alimentavam.
Colocou as coisas no porta-malas do carro, entrou e partiu. Pra onde? Que lugar?
Não se sentia culpado ou frustrado, só sentia que na verdade não sentir, era estranho. E aquela verdade, saída da boca da mulher o incomodava de alguma forma. Ela era perfeita, admirada e desejada pelos amigos; não sentia ciúmes disso, achava peculiar apenas. Ela foi entrando na vida dele e ele, passivamente, deixou que nele, ela se enroscasse.
Suas fotografias, carregavam um pouco desse dar de ombros em relação a vida, como um amigo uma vez lhe dissera, eram de uma visão situacional. E agora era isso. Ele havia sido desnudado pelos outros, por pessoas quase estranhas e se via, mas não se sentia particularmente afrontado. Olhava a si mesmo com curiosidade simples, sem anseios, como alguém pode observar de uma janela durante toda a tarde, o movimento da rua lá embaixo.
Não era isento de desejos, ou ambições, ou todas aquelas coisas que causavam a inquietude na humanidade. Não. Possuía a tudo isso, mas o que agora notava, era que estavam todos adormecidos, há tanto tempo, que nem notou quando isso começara. Mas agora, não fazia ideia de como acordá-los ou se deveria. Apenas respirava e pensava.
Sua vida até aquele momento não havia passado da vida da maioria das pessoas; uma vida normal. Nem pobre, nem rico, mais alto ou mais baixo, melhor que ninguém. Um a mais, nada além. Alguns chamariam de uma vida apática.
As perspectivas que tinha até aquele momento vinham de seu emprego e do hobby que exercia nas horas vagas, que consistia em ir até qualquer lugar que concentrasse algum grupo de pessoas, nas mais variadas atividades, e fotografá-las; quase como um voyeur. Era um voyeur, na verdade, agora percebia com clareza.
Resolveu ir para um pequeno hotel que conhecia por que ficava no caminho que sempre fazia para o trabalho. Alugou um quarto e separou algumas roupas e coisas, saiu, jantou e comprou cigarros. Revirando o conteúdo da mala pequena, encontrou algumas das fotos que havia tirado há alguns meses em uma feira.
Olhando mais detalhadamente, ficou orgulhoso do seu trabalho. Eram sim, de uma vulgaridade cotidiana, mas nelas havia um movimento poético, que agora percebia; as rugas na mão da senhora que segurava um pêssego grande, macio e carnudo, com tamanha delicadeza; os olhos velhos de um menino de rua; as pernas finas de uma moça na Paulista, o suor na testa do feirante, brilhando como pequenas jóias na testa, as mãos suplicantes de um mendigo, as mãos dadas de meninas na Augusta.
A sétima foto caiu no chão, embaixo da cama em um canto escuro e dificil, e nela viu algo que prendeu sua atenção. Aquela em particular lhe causou perplexidade e se perguntou como não havia notado aquilo. A maioria das pessoas que retratava, fotografava de longe e sem a intenção de poses ou sorrisos, natural; e lembrava que com aquela, não havia sido diferente. No entanto, a mulher o encarava, não sorria, mas havia palavras nos olhos e na boca. Tudo diziam, mas estavam ininteligíveis, eram uma pergunta em outra lingua. Sentiu a picada, um pequeno choque, piscou os olhos e despertou. Encontrara, ou melhor, perdera, quebrava a maldição sem saber. Nos olhos dela, haviam perguntas, promessas, quem sabe? Ela era esfinge; propusera o enigma. E ali, começava a odisseia.
Contou. Sete fracassos. Se bem que não amava aquela mulher, e tudo no que havia fracassado na verdade, havia sido dessa forma; nem se dera ao trabalho de lutar, ou conquistar. Simplesmente aceitava. Entrou em casa e encontrou as malas arrumadas. Olhou para tudo aquilo e os olhos vermelhos de Regina e entendeu no exato instante, tudo. Calado, pegou suas coisas e saiu; ela o prendeu com as palavras; uma verdadeira torrente, um rio, engasgado na garganta daquela mulher, que mais lágrimas alimentavam.
Colocou as coisas no porta-malas do carro, entrou e partiu. Pra onde? Que lugar?
Não se sentia culpado ou frustrado, só sentia que na verdade não sentir, era estranho. E aquela verdade, saída da boca da mulher o incomodava de alguma forma. Ela era perfeita, admirada e desejada pelos amigos; não sentia ciúmes disso, achava peculiar apenas. Ela foi entrando na vida dele e ele, passivamente, deixou que nele, ela se enroscasse.
Suas fotografias, carregavam um pouco desse dar de ombros em relação a vida, como um amigo uma vez lhe dissera, eram de uma visão situacional. E agora era isso. Ele havia sido desnudado pelos outros, por pessoas quase estranhas e se via, mas não se sentia particularmente afrontado. Olhava a si mesmo com curiosidade simples, sem anseios, como alguém pode observar de uma janela durante toda a tarde, o movimento da rua lá embaixo.
Não era isento de desejos, ou ambições, ou todas aquelas coisas que causavam a inquietude na humanidade. Não. Possuía a tudo isso, mas o que agora notava, era que estavam todos adormecidos, há tanto tempo, que nem notou quando isso começara. Mas agora, não fazia ideia de como acordá-los ou se deveria. Apenas respirava e pensava.
Sua vida até aquele momento não havia passado da vida da maioria das pessoas; uma vida normal. Nem pobre, nem rico, mais alto ou mais baixo, melhor que ninguém. Um a mais, nada além. Alguns chamariam de uma vida apática.
As perspectivas que tinha até aquele momento vinham de seu emprego e do hobby que exercia nas horas vagas, que consistia em ir até qualquer lugar que concentrasse algum grupo de pessoas, nas mais variadas atividades, e fotografá-las; quase como um voyeur. Era um voyeur, na verdade, agora percebia com clareza.
Resolveu ir para um pequeno hotel que conhecia por que ficava no caminho que sempre fazia para o trabalho. Alugou um quarto e separou algumas roupas e coisas, saiu, jantou e comprou cigarros. Revirando o conteúdo da mala pequena, encontrou algumas das fotos que havia tirado há alguns meses em uma feira.
Olhando mais detalhadamente, ficou orgulhoso do seu trabalho. Eram sim, de uma vulgaridade cotidiana, mas nelas havia um movimento poético, que agora percebia; as rugas na mão da senhora que segurava um pêssego grande, macio e carnudo, com tamanha delicadeza; os olhos velhos de um menino de rua; as pernas finas de uma moça na Paulista, o suor na testa do feirante, brilhando como pequenas jóias na testa, as mãos suplicantes de um mendigo, as mãos dadas de meninas na Augusta.
A sétima foto caiu no chão, embaixo da cama em um canto escuro e dificil, e nela viu algo que prendeu sua atenção. Aquela em particular lhe causou perplexidade e se perguntou como não havia notado aquilo. A maioria das pessoas que retratava, fotografava de longe e sem a intenção de poses ou sorrisos, natural; e lembrava que com aquela, não havia sido diferente. No entanto, a mulher o encarava, não sorria, mas havia palavras nos olhos e na boca. Tudo diziam, mas estavam ininteligíveis, eram uma pergunta em outra lingua. Sentiu a picada, um pequeno choque, piscou os olhos e despertou. Encontrara, ou melhor, perdera, quebrava a maldição sem saber. Nos olhos dela, haviam perguntas, promessas, quem sabe? Ela era esfinge; propusera o enigma. E ali, começava a odisseia.
sábado, 15 de março de 2014
Banquete
Em um dia de ira,
nem as divindades
terão pena de ti.
Terei meu banquete
em que você será o sacrifício.
Vou comer teu fígado
e cuspir flores.
Do tutano que eu chupar de teus ossos,
sua essência escorrerá pela minha garganta,
como hidromel.
A tua carne perfumada, mordida e mastigada,
engolida com deleite,
alimentará as incertezas que um dia nutri,
do que não foi devorado dentro de mim,
pelo sentimento que tinha.
Não deixarei nada para os corvos, cortarei, dividirei, partilharei você,
com todos aqueles que desejarem.
Nada. Para que não haja mais o perigo de que nada de você fique,
que nada de você ainda possa ameaçar minha paz.
a paz que adquiri a cada mordida, a cada bocado que enfim devorei, depois de por você ter sido devorada.
Seremos um.
Enquanto não chega este dia, sorrio ante esse pensamento,
A bela máscara que esconde o meu verdadeiro desejo.
nem as divindades
terão pena de ti.
Terei meu banquete
em que você será o sacrifício.
Vou comer teu fígado
e cuspir flores.
Do tutano que eu chupar de teus ossos,
sua essência escorrerá pela minha garganta,
como hidromel.
A tua carne perfumada, mordida e mastigada,
engolida com deleite,
alimentará as incertezas que um dia nutri,
do que não foi devorado dentro de mim,
pelo sentimento que tinha.
Não deixarei nada para os corvos, cortarei, dividirei, partilharei você,
com todos aqueles que desejarem.
Nada. Para que não haja mais o perigo de que nada de você fique,
que nada de você ainda possa ameaçar minha paz.
a paz que adquiri a cada mordida, a cada bocado que enfim devorei, depois de por você ter sido devorada.
Seremos um.
Enquanto não chega este dia, sorrio ante esse pensamento,
A bela máscara que esconde o meu verdadeiro desejo.
quinta-feira, 13 de março de 2014
Pesadelos.
Acordou com o peso do braço dele e a mão no seio. A respiração pesada, batendo no seu rosto. Olhou e sorriu. O jeito pesado de dormir de uma criança. Uma das coisas nele que a encantava. Levantou e foi para a janela, começar a rotina do dia. Estranho ela ter isso. Rotina. Acordar com ele ao lado, e fazer coisas juntos, ainda era uma grande novidade. Ao menos para ela.
Lá fora, uma sereia passava. E o mar era apenas areia, que camelos atravessavam.
Não se deu conta daquilo. O milagre continuava estendido em sua cama. Acendeu um cigarro e fumou sem produzir fumaça. Na verdade, o mundo tinha perdido o som. E aquilo não a incomodava, o que também era estranho pra alguém tão barulhenta.
Saiu e foi a padaria comprar pão em meio a uma selva, o atendente era um crocodilo. Recebeu o troco em conchas.
Voltou flutuando; tinha comprado pães com gosto de manga e tulipas sem cor, que imaginava serem tulipas.
O pesadelo começou, quando voltou e não o achou. E acordou.
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