sexta-feira, 10 de março de 2017

[A posse em três atos ou as contas do terço]


Mariinha cozinha, lava e deixa alvo o algodão dos lençois. Faz bolo de puba, costura, cuida da casa e do terceiro filho. É devota do Sagrado Coração de Jesus, como sua mãe. Que saudade de mainha, morreu no parto do seu último irmão, que pela bondade de seu Antóim ela criava.
Mariinha ainda hoje escondido brinca com as bonecas de trapo e sabugo que ela faz sumir no meio do borralho. Quando seu Antóim chega da lida do roçado, esbravejando por comidas e haveres, aquele homem grande, mãos grandes, sem tamanho e ela tão pequena, ela começa a tremedeira, treme inteira, calada a coitada. Treme, enxuga escondida na ponta do avental as lágrimas que lhe aparecem nos olhos. Serve a comida. E a cama. Ela serve. Pra isso que mulher foi feita, pra servir. Foi prometida em casamento pra Antoin antes mesmo de sair do ventre de sua mãe. Se fez mocinha aos 9 anos de idade e aos onze já estava casada. Nunca pegou em um lápis e papel. Instrução vira a cabeça de mulher, não é bom saber leitura, ouvia dizer seu pai e o padre aquiescia.
Não gosta daquela vida que lhe foi dada, mas se conforma. Nunca soube de mulher que tivesse outra. A não ser as da vida. Mas essas penam na mão dos homens tanto como qualquer.Todas no final, vivem, todas estão na vida de algum jeito, pensava. Mas não tinha coragem de dizer aquelas coisas tortas que apareciam em sua cabeça. Mariinha pensa muito no seu canto, sobre as coisas. E cisma que um dia, tudo ainda há de mudar.
Mariinha é mulher sem luxo. Nada pede. Tudo acata. Tudo cala. Guarda pra si tanta coisa. A dor toda sem soluço e sem abraço que foi da perda do primeiro filho. O medo que sentiu ao sofrer as dores do parto. O pavor que quase lhe escapa dos olhos quando seu Antóim chega bêbado em casa, falando alto e exigindo o corpo tão delicado dela. Mariinha é toda um alfenim, um doce suave de cana. Ainda mesmo depois de tanta dor, consegue sorrir pros filhos, suas crias que ela ama tanto; se avecha, quer os filhos estudados, longe da ignorância. Cuida, ama, acaricia a cabecinha de seus rebentos a mais não poder. Quer pros filhos e pra filha que ainda vai vir um dia, uma vida toda outra que não se assemelhe a dela.
Mariinha sente muita saudade, ainda sonha. Sonha que ainda é menininha nova e está com a mãe, deitada em seu regaço, ouvindo ela cantar as vozes do sertão.
Pena que é só sonho.

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