quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

[Titulo breve para a caça]

Bebe água e presta atenção. Respiração leve. Qualquer murmúrio além do vento nas folhas das árvores,  faz levantar a cabeça e escutar. Cheirar, buscar no vento a proximidade do predador. Os olhos saltam das pupilas ligeiramente, um ricto arrepia os pêlos da costa e a faz desconfiar. O dia quente, a grama verde, a serpente que passa e o céu.Libélulas. Moscas em seus olhos. O cheiro que a mudança do vento traz o denuncia. Ela salta. Ele salta de unhas abertas, golpeando o ar. A vida depende da ligeireza e de rápidas mudanças no percurso, ele corre e é rápido também. O disfarce, o embuste não foi suficiente. Coração na boca, o medo colado no peito embrulhando o estômago, o suor escorre e cobre o pêlo, que brilha. Ele sua também. Arreganha mais os dentes, as presas gotejam. A língua de fora denuncia o extremo, aquela emoção é o que busca, a excitação da perseguição é tão prazerosa quanto o sangue que quer sentir entre as presas. O Sol indo alto no céu  tudo mostra, indiferente, queimando as peles que se procuram. Ele se lança e a acerta, os dois bolam enrolados no chão. Um último, extremado e inútil esforço de se descolar. Ela não tem mais forças, os passos vacilam, os olhos nublados da morte e o sangue escorre. Ele se aproxima. Os olhos se cruzam e ainda há pânico na última centelha que brilha. A caçada acabou. A tinta de frutas da camuflagem borrada pela corrida e pelo suor que agora resseca na pele. Sente ainda quente o sangue da corça, enquanto corta com a faca. Caça, comida, festa. Mas mais vida pra quem? 
O caçador e a corça são a mesma coisa. Intuitivamente em si o mesmo fôlego pela vida. A água, a terra, fogo e o tempo tudo devoram. Os olhos da corça, o manto do caçador, a flecha, a alegria da caça e o alimento da tribo.A pintura da mão espalmada sobre o desenho da corça, a posse pela luta. A dança e os rituais, a caçada do desejo nas fogueiras de fertilidade.  O trigo do pão e o chão que nos acolherá também como semente estranha, um só. A tinta do desenho na caverna, permanece por gerações, cada vez mais embotada, desaparecendo com as intempéries do tempo. Tudo perece. O que fica é rememorado para ser esquecido. 

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