Em cada segundo se esvai uma grama de lucidez. Gritam a plenos pulmões. Em minha família isso é comum. A propensão à loucura. A sensação de perseguição, a paranóia, esquizofrenia e mania de grandeza. Em quem nunca foi nada além de pessoas, o vôo no vazio é sempre o objetivo. Todas normais. Todos loucos. Mães, tias, primos. Casamentos entre parentes, consaguinidades, o ódio eterno, incestos, doenças hereditárias, congenias, reais ou imaginárias. Remorsos, sentimentos infundados, emoções reprimidas, as mais variadas explicações, pra um mal tão simples: somos todos loucos.
Vivendo e babando por aí uma sanha que não descansa e uma raiva que nem todos os mares bebidos e noites em claro podem curar. Nos rasgamos, arrancamos os cabelos, nos afogamos em remédios, consultamos a opinião: alheia, médica, curandeira e nada dá jeito.
A loucura que nos envolve parte dos mais variados motivos, mas tem sempre algum ponto em comum: a dificuldade de adequação as coisas, ao mundo e as pessoas. É o nosso não-lugar. Há os de todos os tipos: da santidade, megalomaníacos sem altivez, românticos suicidas, os utópicos revolucionários, loucos mansos e os insignificantes que procuram confundir-se com a parede. Há os de beleza rara e há os que metem medo em criancinhas. Os que perdoam e esquecem e os que bebem o sangue.
Essa doideira, atinge gente querida e odiada, sempre faz estragos, alguns remediáveis, outros, causadores de novos e infinitos dramas, dignos de romances épicos e novelas mexicanas.
As vezes alguns de nós, tenta fingir normalidade. Se fantasia com gravata, é pontual, fala coisas respeitadas, apreciadas por muitos; sensatezes. Mas em algum momento, o sangue fala, a gravata aperta, o olhar mostra o desvario e se faz ouvir, com palavras que saem como em um jorro. Nada moldam, nada formulam, apenas saem.
Gostaríamos de ser outros? Talvez. Dói viver dessa forma, não se encontra compreensão; o que há é vergonha, risos e dissimulação. Até mesmo os mais bem intencionados, acabam por afastar-se. porém é costume já tão enraizado, como aquela árvore velha, nodosa e grossa, crescendo nos cabelos de minha avó.
sábado, 18 de outubro de 2014
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
Revolta
Deus é homem.
E eu uma ovelha.
Fêmea e suja.
Ele me deu seios,
Mas ele mesmo não os tem.
Um sexo repudiado e exaltado.
A eterna dicotomia,
Santa e pecadora.
Que ama e tem sua carne,
Preparada durante toda vida,
Para o abate e assim,
Me salvar de meu pecado
.
O gozo da vida me é negado.
O gozo da vida me é negado.
Devo calar, sorrir e acenar.
Servir e abaixar a cabeça.
Orar, rezar, me humilhar
E nunca ser perdoada.
Por isso, agora digo:
Sujo e pecador é o seu julgamento.
E a sua palavra castradora.
Despirei a pele que colocaram em mim.
Todo meu corpo quer florir.
Sou agora um novo gênesis(ero).
Me inventarei como quero.
E pecado em vossos ânus.
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