segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Nós dois

Nós dois, atravessando a rua, nos beijando. Nós dois provocando com o nosso amor uma revolução.
Nós dois, sentados no café olhando pro chão, as árvores, os passantes.
Nós dois, que já não conversamos, já não nos beijamos mais.
Nós dois.
Juntos.
Sozinhos.
Você aperta a minha mão e ri de uma forma tão linda, que eu abro um sorriso que iluminaria o mundo por um segundo. Você me puxa pela milésima vez e me beija e diz que me ama.
Você esconde as mãos no bolso, usa um tom de voz educado e fala que precisamos conversar e deixar tudo acertado.
Você esconde as mãos e os olhos no café, e eu fico sem palavras.
Você me abraça durante o medo, não solta a minha mão no escuro, enxuga as minhas lágrimas e repete que sempre vai estar ali, pra mim e por mim.
Você se torna não só o amante, mas o amigo.
O tom que usamos é formal, inflexível, destoante das conversas animadas e das risadas e felicidade ao redor. É um dia de Sol, é verão. Faz calor, mas ambos trememos. Tudo que a gente quer é ir embora dali, abandonarmo-nos uma vez mais.
A chuva e o frio impedem as pessoas de sorrir. Elas passam apressadas por nós, mas será que elas não vêem o enorme, a  brilhante luz que toma tudo reavivando o cinza? Quem são aquelas pessoas tristes? Por que elas são assim?
O nosso futuro e o nosso passado, um dia, se encontraram na esquina.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

[Titulo breve para a caça]

Bebe água e presta atenção. Respiração leve. Qualquer murmúrio além do vento nas folhas das árvores,  faz levantar a cabeça e escutar. Cheirar, buscar no vento a proximidade do predador. Os olhos saltam das pupilas ligeiramente, um ricto arrepia os pêlos da costa e a faz desconfiar. O dia quente, a grama verde, a serpente que passa e o céu.Libélulas. Moscas em seus olhos. O cheiro que a mudança do vento traz o denuncia. Ela salta. Ele salta de unhas abertas, golpeando o ar. A vida depende da ligeireza e de rápidas mudanças no percurso, ele corre e é rápido também. O disfarce, o embuste não foi suficiente. Coração na boca, o medo colado no peito embrulhando o estômago, o suor escorre e cobre o pêlo, que brilha. Ele sua também. Arreganha mais os dentes, as presas gotejam. A língua de fora denuncia o extremo, aquela emoção é o que busca, a excitação da perseguição é tão prazerosa quanto o sangue que quer sentir entre as presas. O Sol indo alto no céu  tudo mostra, indiferente, queimando as peles que se procuram. Ele se lança e a acerta, os dois bolam enrolados no chão. Um último, extremado e inútil esforço de se descolar. Ela não tem mais forças, os passos vacilam, os olhos nublados da morte e o sangue escorre. Ele se aproxima. Os olhos se cruzam e ainda há pânico na última centelha que brilha. A caçada acabou. A tinta de frutas da camuflagem borrada pela corrida e pelo suor que agora resseca na pele. Sente ainda quente o sangue da corça, enquanto corta com a faca. Caça, comida, festa. Mas mais vida pra quem? 
O caçador e a corça são a mesma coisa. Intuitivamente em si o mesmo fôlego pela vida. A água, a terra, fogo e o tempo tudo devoram. Os olhos da corça, o manto do caçador, a flecha, a alegria da caça e o alimento da tribo.A pintura da mão espalmada sobre o desenho da corça, a posse pela luta. A dança e os rituais, a caçada do desejo nas fogueiras de fertilidade.  O trigo do pão e o chão que nos acolherá também como semente estranha, um só. A tinta do desenho na caverna, permanece por gerações, cada vez mais embotada, desaparecendo com as intempéries do tempo. Tudo perece. O que fica é rememorado para ser esquecido.