Eu só preciso de algumas palavras. Encontrar ideias neste cinza, não é nada fácil. Parece que essa fuligem impregna em tudo. Até dentro de nós. Não é qualquer poeirinha besta. É uma cor e um pó, respirados que se entranham em você. Pode tanto entrar pelas vias aéreas com o cigarro, como por outros caminhos impensados; pelos ouvidos, pelos olhos, pelo mau humor, que fecha a cara e apaga o sorriso. Refúgio, fuga, ilusão, despistar esse mal, é o que sempre se tenta. Poucas vezes se alcança.
Cinza. De vidas queimadas, de existências não-torradas, de vontades não-ditas, de silêncios que abortaram o grito.
Mas ela é um afasto, uma cor no muro, a gravata do chefe que só te dá esporro, o grisalho dos cabelos e do rosto cansado, de quem acordou , mas ainda não viu a luz do dia. Ela tem certa dificuldade em atravessar espessura quase impermeável. E a pergunta que está em tudo é como fugir. é uma cor. Associada geralmente a melancolia; e daí para os tons e sentimentos cromáticos mais baixos, é um pulo. Um pulo pro vazio, um pulo pro nada. Um pulo da ponte.
Jura feita de que não gostaria de falar de algo tão real e dolorido. Mas camuflar como se tenta, não adianta mais. Muitos a amaldiçoam, alguns a bendizem; já foi muito cantada, mas depois que se tornou a cor oficial e oficiosa por todo lugar, deixando tudo tão pálido, anda perdendo a credibilidade.
Penso nela mais como um aviso. Cuidado. Se ingeri-la cheira-la, come-la, bebe-la, e o que mais se faz com ela, com frequência, pode acabar virando papelão. É uma cor profética, digamos. Ela está em tudo e mergulha em cada um, tentamos disfarçar, desviamos, mas ela lá está. Ela se impõe. É notada, mesmo sendo tímida, mas ali está para dizer algo, que não se deseja ouvir.
Quem sabe se ouvíssemos quem anda com ela e a veste, poderíamos entender a mensagem, tão clara, que chega a estar decodificada.
Há quem teorize sobre o conteúdo da mensagem. Creio que seja apenas uma a significação. Viva. É tudo o que não se tem feito, escondendo-se atrás de tanto cinza. E não falo de viver de qualquer jeito, é viver, estando com todos os sentidos abertos, aqueles mesmos, por onde ela entrou e se acumulou. É viver com plenitude. É viver tudo. De todas as formas e tamanhos de vida, desde que se escolha como viver. Ainda que ninguém saiba ao certo como se faz isso.
Uma vida e tantos cores pra torrar e estamos presos. Em estruturas de metal e concreto. Cinza.
Até eu. Por enquanto.