Tinha muito tempo. Calma.Tudo ao seu tempo. O tempo não pára, toca no rádio. Temos todo o tempo do mundo, e ele escorre entre os dedos. Mais um cigarro, queimando lentamente, pra passar o tempo. O som do tempo lá fora, com os carros passando, as crianças na rua e o vento forçando a janela, querendo trazer o tempo, para dentro daquele quarto. Mais ali o tempo deixou de existir de algum forma, ou se existe, se arrasta. Olha para tudo, rememora o que deve fazer, mas não faz. Adia, procrastina, desleixa o trabalho. Se culpa por isso. Uma coisa aprendera tempos atrás, com muito custo: com o tempo não se brinca. Precisa de um novo tempo. Precisa na verdade, de si, há uma semana atrás. Não consegue voltar à normalidade, à seu tempo. Prende-se a uma memória viciante, um som repetitivo em sua cabeça. É uma agonia e um prazer ao mesmo tempo, e tem medo de enlouquecer, por medo, não se permite. Não agora. Precisa organizar-se.
O tempo lá fora, é diferente do tempo aqui dentro, pensou. Eram uma coisa só o tempo lá fora e aquele corpo, há uma semana atrás; caminhavam no mesmo passo tranquilo, dentro da norma, da regra. Mas isso mudara. A chegada dele, transformara tudo. A volta, na verdade. Teria se curado completamente, se ele não tivesse voltado. Por que voltar? Pra quê? Entrou com tanto escarcéu, uma verdadeira hecatombe, pegando logo um cigarro dos seus e acendendo, com o mesmo sorriso torto no rosto. Aquilo lhe deu um ódio tamanho. Ao mesmo tempo, odiava, mas não reagia; por perplexidade, deixou ficar.
Olhou o relógio e viu que ele daqui há pouco tempo, retornaria. Em um segundo de desespero, levantou, colocou coisas em uma mala, pegou a carteira e as chaves e saiu. Trancou a porta do quarto, mas sabia ser inútil, ele daria um jeito de entrar sempre.
Saiu, suspirou e voltou a sentir liberdade.
Um mês depois ao retornar para a casa que abrigava agora sua nova rotina, de uma cama eternamente desfeita, uma geladeira com restos de comida e um cinzeiro cheio, encontrou um bilhete embaixo da porta:
"Se não me queria, não precisava abandonar seu lugar, me pedisse que eu ia embora, novamente, como fiz das outras vezes; volto, por que você sempre me chama.
Seu,
Tempo".
Nenhum comentário:
Postar um comentário