Sento-me em
minha mesa favorita do café. Sim, é aquela mesma mesa ainda. Na janela, que
dava para a esquina da rua. O engraçado nisso tudo é ir a um café, para tomar
suco de laranja. E que eu acho o melhor da cidade. Gosto meu, fazer o quê. E o
segundo motivo é ainda por que nessa mesma mesa, apesar de já gostar dela muito
antes, ela me lembra cada palavra das nossas conversas.
Estranho pensar que só ao me sentar é que me vem com tanta perfeição a sua
imagem, seus gestos, palavras e as vezes até seu cheiro. Poxa, eu fico com uma
sensação horrível de frustração. Ainda me apego a sua lembrança. Não que
tenhamos terminado mal, desejando reciprocamente nossa morte. Mas foi de um
jeito tão estranho...um monologo a dois, onde nada ficou muito claro, um abraço
sem sal sobre a chuva e silêncio.
Quando tudo que havia eram um monte, toneladas de
palavras, silêncio entre nós era algo raro. E agora eu aqui, tomando suco de
laranja, escrevendo essas bobagens, parecendo uma mulher melosa, tentando
entender sozinha. Um exercício inútil.
Mas um dia ainda, só de desaforo a sua imagem, só pra
insultar a sua lembrança, coloco na cadeira que o seu fantasma-memória ocupa
agora, um outro cara. É, você vai ver só. Eu mato você, saudade.
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